Depressão em Pastores evangélicos

  Ismael Sobrinho Psiquiatra

Depressão em Pastores evangélicos

Dr. Ismael Sobrinho – Psiquiatra


De ontem para hoje vi várias mensagens no Whats App sobre o suicídio de pastores. Abaixo compartilho o capítulo do livro que escrevi sobre Depressão, capítulo: "Depressão entre pastores e líderes cristãos".
Normalmente pessoas que assumem cargos de liderança, gestão, coordenação e são referências para um grande número de pessoas apresentam maior risco de apresentarem quadros depressivos. Nesse ínterim, os pastores e líderes cristãos estão em uma população com alto risco de depressão, pois, normalmente, possuem todos estes atributos.
Lotufo Neto (1977, pág. 151) encontrou maior incidência de problemas psiquiátricos em pastores protestantes que na população em geral. Dentre os pastores com problemas emocionais, a depressão foi responsável por 16,4% dos quadros clínicos.
Várias são as razões que podem explicar esse risco maior de depressão entre pastores e líderes cristãos.
Em primeiro lugar, o pastor é cobrado a ser perfeito, estar sempre feliz, não apresentar problemas pessoais, ter uma família isenta de conflitos ou ainda não apresentar momentos de oscilações emocionais. Essas cobranças fazem com que muitos desses líderes inibiam sentimentos, não expressem suas dores, não compartilhem seus dilemas, angústias ou demonstrem fragilidades inerentes a qualquer ser humano.
Essa atitude faz com que o líder acumule muitas pressões emocionais internas que, ao longo do tempo, irão ser um catalisador de quadros de depressão.
Em minha prática clínica, é muito comum que pastores normalmente informem que não compartilham seus dilemas ou sentimentos com suas comunidades porque serão julgados ou mal compreendidos. Certa vez, um pastor disse que, ao comunicar ao Conselho Pastoral de sua igreja que estava em depressão, foi informado que deveria deixar imediatamente a igreja, sem que lhe fosse oferecida nenhuma ajuda espiritual ou emocional.
Outro ponto importante, sobretudo em pastores pentecostais, é a completa inibição de sentimentos ou cuidados emocionais. Há uma tendência a se espiritualizar a doença, por parte desses líderes, fazendo com que deixem de tratar quadros depressivos e ansiosos inicialmente leves que, ao longo do tempo, passam a apresentar maior gravidade. Para eles, medicamentos ou psicoterapia são vistos como sinais de fraqueza, falta de fé ou mesmo falta de confiança em Deus. Isso faz com que não haja cuidados com o corpo e alma extremamente necessários a uma vida cristã equilibrada e saudável. São poucos os pastores que praticam esportes, tem hobbies ou realizam atividades de lazer.
Também contribui para o surgimento de depressão nesses líderes o elevado grau de problemas conjugais. Frequentemente ficam divididos entre o cuidado da igreja e suas famílias, ocasionando conflitos emocionais significativos. Comumente a família reclama (muitas vezes com razão) que a igreja é a prioridade em detrimento de esposa e filhos, fazendo com que os conflitos dentro do lar e as consequências dessa omissão abram uma grande brecha para o surgimento de quadros depressivos. Há um grande número de pastores que aparentemente apresentam ministérios bem-sucedidos, mas possuem famílias completamente destruídas ou fragilizadas emocionalmente. No curto prazo, essa situação pode até mesmo ser administrada, mas no longo prazo será um grande fator de risco para o surgimento de transtornos emocionais.
Fatores internos da igreja também são constantemente apontados como causadores de sintomas depressivos. É comum que pastores sofram tentativas de controle, coerção, ameaças, assédio moral e agressões emocionais por parte de conselhos, grupos ou famílias dominantes em suas comunidades. São situações dramáticas em que o líder permanece no ministério sob grande carga de estresse físico e emocional.
Também devem ser apontadas as constantes dificuldades financeiras vividas pelos pastores evangélicos. Ao contrário do que muitos pensam, a maioria desses líderes é mal remunerada, não possui planos de saúde e não tem previdência social. Isso faz com que as preocupações com a família e com o futuro possam gerar sentimento de tristeza, desesperança e frustação com o chamado ministerial. Muitas igrejas e comunidades, mesmo apresentando condições financeiras, não fornecem o suporte financeiro necessário para que o líder exerça o seu ministério dentro de condições mínimas de saúde emocional.
A sobrecarga de trabalho também é um fator apontado com causador de depressão em pastores. O pastor é cobrado por sua comunidade a estar sempre pronto e disponível para realizar qualquer atividade, seja pastoral ou sem qualquer relação direta com a igreja. Certa vez, um pastor me disse que era demandado por membros de sua igreja a acompanhá-los em concessionárias para supervisionar a compra de carros usados ou ser fiador na locação de um apartamento.
O tempo de descanso, lazer ou cuidado familiar não costuma ser respeitado pelos membros da igreja, fazendo com que os pastores tenham uma carga de trabalho muito acima do máximo recomendável.
É comum um líder, no mesmo fim de semana, realizar funerais, casamentos, cultos, aulas e treinamentos. Isso demanda muita energia emocional e produz exposição a situações com demandas sentimentais e cognitivas completamente antagônicas. É uma verdadeira “bomba emocional” vivenciada em poucos dias.
Pastores também sofrem constantemente mudanças de cidade ou comunidades, fazendo com que laços afetivos e culturais sejam sempre rompidos. Outra marca importante é a ausência de amigos na vida de muitos líderes cristãos. Pela contínua cobrança por perfeição e por, muitas vezes, serem traídos por pessoas próximas, a presença de verdadeiros amigos e confidentes é mais rara do que se pensa.
Por fim, não se pode esquecer da pressão espiritual que sofrem os pastores cristãos. São líderes responsáveis pela condução espiritual de um grande número de pessoas, fazendo com que sejam alvos prioritários e frequentes das forças espirituais do mal. Da mesma forma, a expectativa criada pelos membros de suas comunidades faz com que se cobrem mais espiritualmente que o restante das pessoas.
Todos esses fatores fazem com que os pastores sejam alvos constantes de oração, intercessão e cuidados redobrados por parte dos membros de suas comunidades. Pastores e líderes são homens sujeitos às mesmas paixões, conflitos e dificuldades que nós.

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